A partir de maio de 2026, a nova Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passa a reconhecer oficialmente os chamados riscos psicossociais, levando a saúde mental do campo do discurso para o centro das obrigações legais das empresas.
O tema deixa de ser apenas uma pauta de bem-estar e passa a ser tratado como questão de negócio, sujeita a auditorias, fiscalização e multas.
O avanço dos afastamentos por transtornos psicológicos, segundo a advogada, tornou inevitável a ampliação do conceito de segurança no trabalho, especialmente após a pandemia.
No Brasil, os números também chamam atenção: só em 2024, o INSS concedeu cerca de 470 mil licenças médicas por transtornos mentais — o maior volume registrado na última década. O custo do adoecimento, que por muito tempo ficou invisível, passou a pesar diretamente no bolso das empresas.
Um estudo da Robert Half mostrou um avanço expressivo no uso de medicamentos para lidar com estresse, ansiedade e burnout no trabalho. Entre líderes, o consumo de fármacos saltou de 18% em 2024 para 52% em 2025. Entre os profissionais liderados, o índice subiu de 21% para 59% no mesmo período.
Na avaliação de especialistas, a mudança promovida pela NR-1 representa uma ampliação de um princípio que já estava previsto na legislação. Até aqui, a norma esteve muito associada à prevenção de acidentes, ao uso de equipamentos de proteção individual e a riscos tangíveis.
A partir de maio de 2026, as empresas também precisarão responder por fatores como estresse crônico, sobrecarga emocional, falta de clareza de papéis, metas irreais, ambientes de medo e relações deterioradas — elementos que, embora silenciosos, afetam diretamente o desempenho e a saúde dos profissionais.
Para atender às novas exigências, especialistas defendem que será necessário investir no letramento emocional das lideranças. Segundo a psicóloga organizacional Patricia Ansarah, fundadora do Instituto Internacional de Segurança Psicológica (IISP), a NR-1 exigirá métodos de escuta mais sofisticados do que as tradicionais pesquisas de clima e engajamento.
Entram no radar práticas como canais seguros de denúncia, análise qualitativa de relações de trabalho e treinamentos contínuos para líderes, capazes de identificar sinais precoces de adoecimento nas equipes.
Esse novo olhar se materializa principalmente no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), que passa a exigir a inclusão explícita dos riscos psicossociais e quais ações estão sendo adotadas para reduzir esse risco.
As penalidades previstas variam conforme o porte da empresa e a gravidade das falhas encontradas, mas o impacto vai além das multas. Problemas de reputação, clima organizacional deteriorado e queda de produtividade entram na conta — e a liderança passa a ocupar papel central nesse processo.
A atualização da NR-1 marca uma virada simbólica no país: o cuidado emocional deixa de ser apenas uma boa prática e passa a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas. Para organizações que desejam se manter competitivas, a mensagem é clara — saúde mental não é mais opcional, é parte da gestão de riscos.
*Artigo original do Exame.