Janeiro, tradicionalmente associado a recomeços, consolidou-se no Brasil como o mês de alerta para a saúde mental. Criada em 2014 pelo psicólogo Leonardo Abrahão, a campanha Janeiro Branco propõe que o início do ano seja uma “folha em branco”, incentivando a reflexão sobre hábitos e a ampliação do diálogo em torno da saúde emocional.
Mais de uma década após sua criação, a iniciativa ganha relevância especial no ambiente corporativo. Nos últimos anos, o Brasil registrou crescimento expressivo nos afastamentos por auxílio-doença relacionados a transtornos de esgotamento profissional.
Esse aumento ocorre em paralelo a mudanças regulatórias que reforçaram o peso da saúde mental nas relações de trabalho. Em 2024, o Ministério do Trabalho e Emprego incluiu a síndrome de burnout na lista oficial de doenças ocupacionais e atualizou a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01), exigindo que as empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais.
Para a advogada trabalhista Elisa Alonso, em entrevista à revista Exame, o avanço dos afastamentos reflete tanto mudanças no comportamento dos trabalhadores quanto na postura das empresas. Mais do que um simples aumento de diagnósticos, os dados sinalizam a consolidação de um novo entendimento jurídico: o adoecimento psíquico deixou de ser encarado apenas como questão individual e passou a integrar a avaliação institucional dos riscos do trabalho.
A norma determina que fatores como estresse ocupacional, sobrecarga, pressão por metas, assédio e impactos emocionais decorrentes da organização do trabalho sejam incorporados aos programas de prevenção de riscos.
Uma pesquisa com 1.730 empresas brasileiras realizada pela Heach Recursos Humanos entre 6 e 22 de janeiro de 2026, revela um cenário preocupante diante das exigências da nova NR-1: 68% das empresas afirmam não compreender claramente as mudanças trazidas pela norma; 62% não possuem qualquer indicador formal para identificar e monitorar riscos psicossociais — um dos pilares da atualização; e 58% admitem adotar uma postura reativa, só agindo após afastamentos, denúncias formais ou ações judiciais.
Ainda segundo a pesquisa, a liderança surge como elemento central nesse contexto de vulnerabilidade. Para 49% dos profissionais de RH ouvidos, o comportamento dos líderes é hoje o principal fator de adoecimento emocional das equipes.
O estudo também expõe um descompasso entre discurso e prática: embora 78% das empresas declarem preocupação com saúde mental, apenas 23% contam com políticas formais, orçamento dedicado e indicadores claros.
Os impactos desse despreparo já se refletem em indicadores operacionais: 61% das empresas não sabem calcular o custo real do turnover; 44% perdem talentos por questões ligadas a clima organizacional e liderança, e não por remuneração; e 52% mantêm profissionais com comportamento tóxico por receio de perder resultados de curto prazo, ampliando riscos trabalhistas, financeiros e de saúde coletiva.
A pesquisa reforça ainda o fenômeno dos “profissionais invisíveis” — aqueles que se sentem pouco ou nada reconhecidos. Organizações com altos índices de invisibilidade apresentam turnover até duas vezes superior à média do mercado.
Por fim, 48% dos trabalhadores relatam assumir responsabilidades acima do cargo sem contrapartida, o que eleva significativamente o risco de desligamentos voluntários e afastamentos por saúde mental.
Diante desse cenário, as empresas brasileiras têm uma janela urgente para sair da postura reativa e investir de forma proativa na saúde mental de suas equipes. Compreender e implementar efetivamente a nova NR-01 não é apenas uma obrigação legal, mas uma oportunidade estratégica de reduzir turnover, custos com afastamentos, perda de talentos e riscos trabalhistas.
*Artigo original do Exame. (1, 2 e 3)